Querido "Relier",
E assim termina mais um capítulo da minha vida, sentado, a escrever sobre a mesa da cozinha do apartamento vazio, mas cheio de histórias e de memórias. Aqui, na "Passage de l'ancre", ancorei a minha vida durante 6 meses. E, comigo, muita gente passou por este porto que, em Paris, contudo, sempre foi um "porto seguro".
Algumas das histórias deixei-as aqui escritas, nas tuas folhas, outras, guardo-as na memória e levo-as comigo.
Foste um ombro amigo quando precisei. Um escape de emoções, uma forma de me exprimir. Quando releio as tuas páginas, sorrio. Constato, mais uma vez, que a minha bipolaridade deixou de ser ficção. É um dado adquirido. Só assim se consegue explicar as minhas flutuações de humor. Contudo, e julgo que concordas comigo que, na maior parte das vezes tive razão.
As dificuldades burocráticas, e a barreira da língua foram, sem dúvida, o grande obstáculo. Não obstante, consegui ultrapassá-las. As pessoas do hospital pareciam camaleões. Não por mudarem de cor constantemente, mas por mudarem a sua forma de estar e de ser, em acordo com as suas necessidades. Julgo não ter sentido na pele a xenofobia e o racismo, mas senti-os à minha volta. Senti a necessidade imperiosa de afirmação dos franceses face ao "ser-se francês". Contudo, pessoalmente, não me posso queixar do acolhimento e da "simpatia" (e reforço, aqui, as aspas) que mostraram ter para comigo. O facto é que trabalhei muito e... bem. Caso contrário, não teria tido as palavras de reforço francamente positivas por parte do director.
Deixando o hospital de lado, o que me segurou, verdadeiramente, em Paris, foi a família e os amigos. Sem eles, não teria sido possível. Voltarei domingo para o meu "porto seguro", para junto dos meus, e são eles, meu caro "Relier", que fazem com que tudo valha a pena.
Lembro-me dos primeiros dias em Paris passados com a minha mãe. São inesquecíveis. Foi um relembrar, por parte dela dos tempos que por aqui também viveu, e foi, para mim, uma forma de me sentir acolhido e aconchegado nesta cidade.
Seguiu-se o acampamento de ciganos, com a minha irmã, cunhado e sobrinhos. Foi a festa. Uma alegria. Ainda me lembro do meu sobrinho a dizer que "afinal a Torre Eiffel não é assim tão grande", num dia invernoso, de chuva, e da minha sobrinha, a chorar, com os pés molhados e frios.
Não vou continuar, aqui, a descrever-te todas as visitas que tive. Todas elas foram importantes e ajudaram-me, não só, a passar melhor o tempo, a fazer com que ele passasse mais rápido como, também, a conhecer melhor Paris. Cada um deles apresentou-me um pormenor diferente da cidade, conduziu-me a um restaurante novo, ou mostrou-me um novo monumento.
Assim, agradeço, e deixo-te, aqui, o nome de todos aqueles que mostraram o seu amor e amizade por mim, num sentimento perfeitamente recíproco, com os seus nomes não encriptados, pois que, neste final do 1/60 da minha vida, todos eles merecem ser reconhecidos pela sua verdadeira identidade:
Mãe (Maria do Carmo), Pai (Pedro Nery), Mana (Márcia), Cunhado (Filip), Sobrinho (Ricardo), Sobrinha (Catarina), Mano (Rui), Sua cara-metade (Elena), Neurocirurgiã de família (Elsa), Dra Cardiológa (Catarina), Prima Nice/ Lamivudina (Eunice), La tante (Mª Fernanda Gayo), Prima Rachel (Raquel), Afilhado (João), Minha advogada/Cris (Cristina), Tatiana, Paulo, Alexandra, Sandra Xará, Tio Alfredo, Tia Nela, Pedro Vita, Susana, Inês, Primo/Tio Xico, Dra. Brandoa (Mariana), Claudia e Peter Pan (Pedro).
Não te poderia deixar de dizer, contudo que tu, meu caro "Relier", nunca estarias completo sem os inúmeros comentários que te foram acrescentando, pelo que agradeço a todas essas pessoas, muitas das quais já supracitadas, o seu carinho e acompanhamento que me foram fazendo ao longo destes 6 meses.
Bom, está na hora de partir, com um certo aperto no coração, e os sentimentos à flor da pele. Vou levar a última mala para casa da Inês e, de seguida, vou ao hospital, nem sei bem porquê... Estava com vontade de aproveitar estas últimas horas em Paris, e de muito sol, para me passear, tal e qual um "faneur", por estas ruas e vielas.
Está na hora de te dizer um último adeus.
Pego na mala, olho à minha volta, dirigo-me à porta da rua, saio, olho mais uma vez e... bato a porta.
Obrigado!







